Entrevista com os roqueiros do Dr Sin

Por Daniel Buarque (daniel.buarque@tvglobo.com.br)

Retomada histórica

Surgida no início dos anos 90, Dr Sin tem renome internacional mas, por uma razão inexplicada, não alcançou um grande conhecimento do público brasileiro. Apesar de ter músicos profissionais e experientes, reconhecidos no mundo todo, o máximo de popularidade que a banda já teve foi o segundo lugar da música Emotional Catastrophe no top 20 da MTV.
A banda é formada pelos irmãos Ivan e Andria Busic, baterista e baixista, respectivamente; pelo guitarrista Eduardo Ardanuy, eleito um dos dez melhores do Brasil, numa votação feita apenas entre músicos; e, atualmente, pelo tecladista Rodrigo Simão. Ivan e Andria são filhos de André Busic, trumpetista de jazz muito conhecido em São Paulo. Edu foi convidado pelos Busic para tocarem juntos. Desde cedo, os três conviveram com os estudos de música e passaram por várias bandas de rock, alcançando o maior sucesso pré-Dr Sin tocando com Supla, nos anos 80. Nos anos 90, lançaram cinco discos. O último, Dr Sin II, foi lançado de forma independente em 2000. Este foi o terceiro show da banda no Recife.

Conseguir a entrevista parecia que ia ser fácil, mas faria qualquer jornalista se sentir como William Miller, o garoto que é o personagem principal do filme “Quase Famosos”. A peregrinação para entrevistá-los começou às 16h do sábado, num workshop oferecido por Edu Ardanuy na Hipermusic, e só foi terminar 15 minutos antes de eles irem ao palco, no camarim do Dokas, às 2h15 da manhã do domingo. Simpáticos e educados se dispuseram desde cedo a falar para o pe360graus.com, mas o tempo não ajudava. Os músicos vinham de vários dias sem dormir, viajando em turnê. No fim das contas, eles acabaram falando de forma aberta, simpática e inteligente por quase 30 minutos. O resultado você pode conferir abaixo.

Entrevista

Daniel Buarque- Para iniciar, queria que vocês dissessem como definiriam a banda Dr Sin para um desconhecido.

Ivan Busic- Uma banda de rock mesmo. Muita gente acha que percebe muito claramente a influência dos anos 70 no som da gente, exatamente porque nossas influências são mais dessa época mesmo. O que fica marcante na banda é a presença de elementos trabalhados por bandas como Beatles, Led Zeppelin, Deep Purple, Jimmy Hendrix, Black Sabbath.

DB- Então vocês tentam se separar dessa visão de que vocês são uma banda de hard rock, heavy metal...

Ivan- É. Tá muito mal contada essa história de estilo, hoje em dia. O pessoal inventa um rótulo e pensa que pode estereotipar a banda.

Eduardo Ardanuy- Eu acho que essa história do rótulo limita muito. Faz com que a banda trabalhe sempre num mesmo estilo, e isso não é legal.

DB- Como foi que o Dr Sin começou?

Ivan- Nós passamos por várias bandas. Eu e o Andria tínhamos muita vontade de tocar com o Edu, já tínhamos gravado um disco instrumental dele. Ficamos como banda de apoio do Supla durante um bom tempo, até resolvermos que queríamos fazer um som nosso mesmo. Aí, ensaiamos algumas vezes, compusemos o material do Dr Sin e fomos para os Estados Unidos.

DB- E o nome da banda, como foi que surgiu?

Ivan- Com o Dr Sin, começamos a nos relacionar com coisas que todo mundo considerava pecado. Só porque éramos cabeludos, tocávamos rock ‘n roll, pensavam que éramos demoníacos. Então decidimos colocar um nome que lembrasse essa comédia.

Andria Busic- É uma ironia

DB- O último disco de vocês foi lançado há dois anos, o Dr Sin II. Como foi o processo de lançamento dele? Foi uma produção independente?

Ivan- Fizemos um lançamento tipo o do Lobão, em bancas de jornal. Foi muito bem sucedido, e uma ótima experiência. Provavelmente, voltaremos a fazer o mesmo, daqui para frente, porque em termos financeiros, é muito bom e é uma facilidade muito grande para o público encontrar o cd.

DB- Como é que vocês sentem esta questão do público, no Brasil?

Ivan- O público brasileiro é muito bom. Apesar de o rock não ser a parte mais forte da cultura do Brasil, sempre que existe um show de rock, um festival, ele tá sempre lotado.A gente tem uma receptividade emocionante. Para uma banda que não está na grande mídia, como Capital Inicial, acho que fazemos milagre nesse país.

DB- Uma pergunta que deve ser constante nas entrevistas de vocês é a questão do idioma. Por que cantar em inglês?

Ivan- Para nós nunca foi problema esta questão de cantar em inglês ou em português, até porque sempre tocamos em banda que cantava em português, antes do Dr Sin. O Dr Sin nasceu com a proposta de tocar uma música mais internacional, cantando em inglês. Mas nós temos vontade de fazer um trabalho em português, até porque sentimos que muita gente não domina o inglês. Talvez seja a hora de fazermos um disco em duas línguas, fazer uma coisa nacional e outra internacional. Não é que estejamos apenas querendo agradar, até porque, para falar a verdade, nós tocamos para nós mesmos. Procuramos, em primeiro lugar, estar felizes com as nossas composições e com os shows, até porque se nós não tocarmos primeiramente para nós mesmos, o público não vai ficar feliz com o som.

DB- Nessa questão de vocês trabalharem um som que é o que vocês gostam, mas que não é o estilo mais popular do país, dá para viver financeiramente do Dr Sin?

Ivan- Nós nos consideramos muito sortudos porque conseguimos viver de rock ‘n roll. Nós somos uma das poucas bandas do país que conseguiu algum destaque. Dá para contar numa mão as bandas brasileiras de rock que conseguiram algum espaço e conseguem viver do rock ‘n roll que fazem. Acho que só posso citar aqui o Sepultura, o Angra, o Dr Sin e o Shaman agora. Estas são aquelas bandas de rock que estão num patamar de poder viver daquilo. Mas o rock ‘n roll tem isso, mesmo sem conseguir viver, você acaba conseguindo se virar. Nós tocaríamos rock com ou sem dinheiro.

DB- O que vocês acham da qualidade musical do que está surgindo atualmente no país?

Ivan- Tem coisas boas. No Brasil, vivemos um momento legal. Saiu um pouco o axé, o pagode, estamos numa era meio pop. Eu prefiro ver um LS Jack na TV de que ver o Molejo. Eu acredito que a fase é legal, pode ser RPM, LS Jack, Jota Quest, mas é melhor que ficar ouvindo axé o dia inteiro.

DB- Como vocês vêem o mercado de bandas de rock no cenário nacional?

Ivan- Sempre que tocamos, há bandas locais que abrem e nós conseguimos ver um monte de talento, mas corta o coração ver uma banda boa, mas que tem instrumentos horríveis, com os quais não tem como sair do lugar.

Andria- A banda não tem condições de comprar um material de qualidade, então vai acabar tendo que trabalhar para poder se manter, e a música passa a ser um hobbie.

Edu- O problema também é que hoje o número de bandas é muito grande. Qualquer garoto não tem o que fazer da vida, compra uma guitarra e forma uma banda. Não é assim, tem que ter educação, você tem que ter o que mostrar, se não, vai ser só mais uma banda, num mercado extremamente saturado.

Ivan- Eu acho que a música se divide em duas partes, antes do cd e depois do cd. Antes do cd, tem que ser talentoso, tem que ter coragem e dedicação para ser músico. Depois do cd, o caixa do banco, minha empregada, minha mãe, qualquer um pode montar sua banda e no dia seguinte ter seu cd lançado. Talvez sem cantar afinado, mas conserta no computador e daqui a pouco tá parecendo o David Coverdale.

Edu- Na era eletrônica, todo DJ se acha um músico. Ele fala como se fosse um instrumentista, o quê que ele toca? Toca scratch? E se acha um instrumentista? Toca uma pick up? E se acha? Hoje, qualquer um é músico, é só ter um computador em casa. Daí começa a entupir o mercado.

Ivan- Antes era diferente, na era do lp, na era da realidade, de tocarem-se músicas boas, de poder-se tocar ao vivo exatamente como no cd. Hoje em dia vêem-se grandes bandas, como Nirvana, com um cd muito bem gravado, ao vivo parecia um radinho am, porque os caras não sabiam tocar, tirando o baterista.

Andria- Inclusive o Foo Fighters é uma das grandes bandas dos dias de hoje.

Ivan- É uma das nossas favoritas, David Grohl era um talento na bateria e continua mostrando muita qualidade musical como líder dos Foo Fighters.

DB- Nesse sentido, eu queria aproveitar para perguntar qual foi a formação musical de vocês?

Ivan- Somos muito aficionados por boa música. Gostamos desde jazz, blues, country. Somos muito antenados, e quem ouve Dr Sin sente o respeito que temos pelas notas musicais.

Edu- Uma preocupação constante de não estar se repetindo. Nós vemos no cenário metal que as bandas são praticamente iguais. O repertório é praticamente o mesmo. Você já escutou, esta noite, alguma levada diferente dessa (faz referência à banda Dominus Praelii que tocava no momento da entrevista)? Vai escutar quando nós formos tocar.

Ivan- E isso é contra o rock, acaba matando o rock, porque o cara não consegue ficar aqui uma noite inteira e ouvir 5 bandas tocarem este mesmo estilo. Essa incoerência da mídia especializada atrapalha bastante. O cara fala que este é o som do momento, aí o moleque se perde e nunca mais vai ouvir AC/DC, nunca mais vai ouvir Led Zeppelin, Nunca mais vai ouvir Beatles e só vai comprar disco do Hammerfall.

Edu- O cara redireciona valores para a música que não fazem muito sentido. Um deles é a velocidade, o cara gosta porque é rápido, como assim rápido? Isso não faz sentido, dizer que é bom porque é rápido. Vai falar para o Beethoven que isso é bom porque é rápido, ele vai rir de você.

DB- Como é o processo de composição de vocês?

Ivan- A maioria das vezes, cada um tem coisas que compõe em casa, grava no computador, ou em cd ou em fita, no ensaio a gente se reúne, cada um mostra seus riffs, seus grooves, e em três ensaios o disco fica pronto.

DB- Vocês já estão preparando algum material novo?

Ivan- Sim, estamos, já temos muita coisa pronta. Nós consideramos até que vai ser o melhor da banda, pelos riffs que estamos criando.

DB- Como é o relacionamento entre vocês? E de vocês com os fãs?

Ivan- É um relacionamento maravilhoso, eu acho que é até um dos motivos de a banda existir, mais de que afinidade musical. O Edu é um cara que parece irmão também, de tanto entrosamento sonoro e na amizade. Nós nunca tivemos problemas em onze anos de banda. Se você pegar a história do Deep Purple, por exemplo, o Ritchie Blackmore, apesar de um talento, causava muito pânico na banda, e isso, graças a Deus, não temos. Em relação aos fãs nós nos emocionamos. Ver que nossa música não está na MTV, não está nas rádios, e mesmo assim, os caras cantam no show. Isso arrepia.

DB- Quem é o instrumentista referência para cada um?

Ivan- Eu só posso falar do John Bonham, do Led Zeppelin. Até porque, até hoje, ninguém conseguiu repetir ou mesmo descobrir como ele tirava aquele som de bateria. Ele é a maior influência da história do rock ‘n roll.

Andria- Geddy Lee, do Rush.

Edu- Nos dias de hoje, Eric Johnson, mas na história, Ritchie Blackmore, do Deep Purple.

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